Pablo Schiavi agita os bastidores no Uruguai com promessa ousada de repatriar ídolos rubro-negros para o gigante de Montevidéu.
O cenário político do futebol sul-americano costuma ser palco de promessas mirabolantes, mas poucas vezes vimos algo tão audacioso quanto o que foi proferido recentemente por Pablo Schiavi, candidato à presidência do Peñarol. Em entrevista concedida ao programa uruguaio Punto Penal nesta terça-feira, o advogado e postulante ao cargo máximo dos Carboneros afirmou categoricamente que fará o "impossível" para contratar a dupla dinâmica do Flamengo, Giorgian De Arrascaeta e Nicolás De La Cruz, caso vença o pleito marcado para dezembro. A declaração, que rapidamente cruzou o Rio da Prata e chegou ao Rio de Janeiro, soou como um misto de provocação e utopia para a Nação Rubro-Negra, dado o abismo financeiro e técnico que hoje separa o atual campeão da Copa do Brasil do clube uruguaio.
Para entender a magnitude do que está sendo proposto, é preciso analisar os números envolvidos na operação. Arrascaeta é, há anos, o cérebro do time da Gávea, com um contrato renovado que o blinda com uma multa rescisória astronômica. Já De La Cruz, contratado no início de 2024 junto ao River Plate por aproximadamente R$ 79 milhões, é uma das peças mais valiosas do elenco comandado por Filipe Luís. Schiavi, no entanto, parece ignorar as barreiras contratuais e a vontade dos atletas, focando em um discurso nostálgico que visa reconectar o Peñarol aos seus tempos de glória continental. O candidato argumenta que a presença de dois pilares da seleção celeste em Montevidéu seria o combustível necessário para resgatar a hegemonia aurinegra, mas a realidade do mercado indica que tirar a dupla do Ninho do Urubu exigiria cifras que o futebol uruguaio, em sua conjuntura atual, simplesmente não possui.
O momento do Flamengo na temporada torna essa investida ainda mais improvável. O clube carioca atravessa uma fase de transição sob o comando de seu novo treinador, buscando consolidar o modelo de jogo agressivo e técnico que caracteriza a história recente da instituição. Com a Libertadores e o Brasileirão no horizonte, a diretoria liderada por Rodolfo Landim não demonstra o menor interesse em se desfazer de seus principais ativos, especialmente para um concorrente direto no cenário sul-americano. A estabilidade financeira do Mais Querido permite que o clube segure seus craques mesmo diante de sondagens do futebol europeu ou do bilionário mercado árabe, o que torna a promessa de um clube uruguaio soar mais como uma estratégia eleitoreira do que como um plano de negócios viável.
Historicamente, o Flamengo sempre foi um destino cobiçado por uruguaios, mas a relação mudou de patamar com a chegada de Arrascaeta em 2019. O camisa 14 não é apenas um jogador; ele é um ícone que superou marcas de lendas como Petkovic e se tornou o estrangeiro com mais títulos na história do clube. Sua identificação com a camisa rubro-negra é profunda, e sua importância técnica é o termômetro do time. Já De La Cruz chegou com o status de substituto ideal e parceiro de criação, formando um meio-campo que é o pesadelo dos adversários. Tentar remover esses dois pilares simultaneamente seria desmantelar o coração criativo de um Mengão que investiu centenas de milhões de reais para manter a hegemonia no continente. Comparar o poder de fogo do Peñarol atual com o poderio econômico consolidado na Gávea é ignorar a evolução profissional que o futebol brasileiro viveu na última década.
Os impactos de uma declaração como a de Pablo Schiavi são sentidos primeiramente no ânimo da torcida uruguaia, que sonha com a volta de seus ídolos nacionais, mas o desdobramento prático no Rio de Janeiro é de total tranquilidade. O departamento de futebol do Flamengo segue focado na manutenção do elenco para o Super Mundial de Clubes de 2025, evento para o qual tanto Arrascaeta quanto De La Cruz são peças fundamentais nos planos de marketing e performance técnica. Não há, nos bastidores, qualquer sinalização de que os atletas desejem deixar o conforto e a competitividade do futebol brasileiro para retornar ao Uruguai neste estágio de suas carreiras, onde ambos ainda performam em altíssimo nível físico e técnico.
Portanto, embora o discurso de Schiavi possa angariar votos entre os sócios do Peñarol em dezembro, a realidade é que o Flamengo detém todas as cartas na manga. A Nação pode dormir tranquila, sabendo que a engenharia financeira necessária para romper os vínculos da dupla uruguaia com o Urubu beira o impossível, tal qual o próprio candidato admitiu em sua fala. O futebol é feito de sonhos, mas a gestão rubro-negra é pautada em contratos sólidos e uma saúde financeira que não permite que o clube seja intimidado por promessas de campanha alheias. O foco permanece no gramado, onde Arrascaeta e De La Cruz continuarão a desfilar sua classe com o Manto Sagrado, para desespero de quem tenta, em vão, levá-los para longe da Gávea.
